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Santa Cruz é rebaixado para a Série B em 2017

Dia 25 de maio de 2016. Em uma noite iluminada de Grafite, o Santa Cruz goleou o Cruzeiro, por 4 a 1, no Arruda, e se manteve líder da Série A. Exatamente: o clube, recém-promovido da Série B, disputava a competição após dez anos - antes, amargurou passagens nas Séries C e D - e estava no topo da elite. O início arrasador ganhou as manchetes do Brasil. Grafite, com a camisa 23 que o consagrou na Europa, parecia reviver a época dourada da carreira. Em três jogos, seis gols marcados. Um feito jamais traçado na era dos pontos corridos. Por que aquele Santa sumiu?

Essa pergunta começa a ser respondida sete dias depois. No Arruda, o Santa Cruz recebeu o Sport e perdeu por 1 a 0. Uma derrota normal, vista de maneira fria. Não há normalidade cair diante do rival por um placar mínimo. O tropeço, após 18 jogos consecutivos - com títulos da Copa do Nordeste e Pernambucano, na mesma semana - foi sentido mais que o devido. Nos bastidores, apesar da glória momentânea, a coisa não andava bem.

Ao mesmo tempo que contrariava a lógica e ia de encontro ao discurso da comissão técnica e direção, conscientes que a briga era contra o rebaixamento, no Santa Cruz pipocavam as queixas de atletas contra os métodos do técnico Milton Mendes. Um dos treinadores mais vitoriosos da história do clube - liderou a conquista inédita do Nordestão, com direito a uma vaga na Copa Sul-Americana -, era considerado inteligente dentro das quatro linhas. Fora delas, a coisa outra diferente.

Mendes sabia do sacrifício que seria dirigir o Santa Cruz. Historicamente, o clube sofreu com problemas administrativos e é o único da capital pernambucana que não tem um centro de treinamento. Observou os rivais Náutico e Sport o ultrapassarem em estrutura. O técnico tentou ajudar, reconhecia a intenção da diretoria em melhorar o clube, mas o drama da falta de dinheiro e a dura realidade parecem tê-lo assustado. Trouxe melhorias, como a compra do sistema Catapult - GPS individual para medir o desempenho dos jogadores -, mas sentiu dificuldades na montagem do elenco. Pediu atletas que não chegaram. Restou a ele trazer as opções mais questionadas do leque. Um cálculo que não deu certo.

O time não encaixou, e Milton colecionou confusões nos bastidores. Pipocavam as queixas dos atletas quanto a maneira dura que cobrava. Perdeu o pulso. Se a falta de um centro de treinamento incomodava Milton Mendes, o baixo rendimento de atletas também.  Sem falar, que ao longo da passagem dele, acumulou problemas de relacionamento com peças principais do grupo. Algumas contratações dele e capitães eleitos pelo treinador já não conservavam uma boa relação.  

Algumas contratações feitas por Milton Mendes foram questionadas desde o momento do anúncio, como o lateral-direito Mário Sérgio, que tem contrato com o clube até junho de 2017, o lateral-esquerdo Roberto e o meia Marcinho - atuou três vezes e depois saiu. Ao todo, passaram 52 atletas pelo clube ao longo da temporada. 

No final da Série A, o Santa Cruz trouxe mais dois para a competição: Mazinho e Wagner, que são reservas.
Em certo momento, o vice-presidente Constantino Júnior admitiu que o clube se confiou demais nas apostas dos treinadores. Como o caso de Milton Mendes, que vinha de dois títulos consecutivos sem contratar para o Estadual e o Nordestão. Na hora de voltar ao mercado, Milton e o Santa Cruz erraram a mão. Muito, ressalte-se, por causa da falta de dinheiro.

- Sempre aprendemos com os erros. Em alguns momentos, fomos induzidos em ter de trazer algum jogador porque o treinador espera que ele corresponda. Analisar depois é muito fácil. Mas Milton chegou e fez os jogadores que estavam com Marcelo Martelotte renderem mais neste ano. Mas existiu, sim, isso de trazer esses jogadores que pensávamos que iam render e não renderam - disse o vice-presidente, logo após a saída do técnico Doriva, ao fazer um balanço dos erros na montagem do elenco.

Após a saída de Milton Mendes, a aposta da diretoria do Santa Cruz foi contratar um treinador com um perfil diferente. Doriva, desejo antigo do presidente Alírio Moraes - como dito na entrevista coletiva da apresentação oficial -, é conhecido por ter um trato fino com o elenco. Nem isso deu certo. Apesar de querer manter um estilo agressivo, o técnico sofreu com a falta de opções. 

O aproveitamento foi muito ruim: após pouco mais de dois meses, o desempenho esteve longe de ser dos melhores: foram 16 partidas no total, com três vitórias, dois empates e 11 derrotas. Um aproveitamento de 22,91%. Desde 2011, essa é a pior performance de um técnico à frente da equipe. Antes dele, Sérgio Guedes, em 2014, apresentou 43%, com nove vitórias, dez empates e sete derrotas.

No fim da estadia no Arruda, Doriva bateu boca com um grupo de torcedores, depois da derrota por 1 a 0, para o Botafogo. O treinador se mostrou chateado com o pouco público nos jogos do time ao longo da campanha na Série A.

Depois da saída de Doriva, a solução encontrada pelo Santa Cruz foi promover o auxiliar técnico Adriano Teixeira ao posto de treinador. Ele fica no clube até o fim da Série A, mas a diretoria procura um outro nome para comandar o time em 2017.

Antes tido como insubstituíveis, Tiago Cardoso e Grafite tiveram de lidar com uma situação que nunca passaram no Santa Cruz: o banco de reservas. O baixo rendimento dos maiores ídolos do elenco deixou bem claro que as coisas não estavam nos trilhos. Enquanto o goleiro convivia com as falhas, o camisa 23 lidou com a pior seca da carreira: entre a disputa da Série A e da Sul-Americana, ficou 15 jogos sem marcar.

Foi Doriva quem teve os colocou no banco de reservas. Mas os substitutos não foram bem: Edson Kolln falhou na mesma medida - como na derrota por 3 a 1, para o Independiente Medellín-COL, que custou na eliminação da Copa Sul-Americana, e na derrota por 3 a 2, para o Palmeiras, na Série A. Bruno Moraes, por sua vez, não manteve um bom rendimento no ataque. Foi questão de tempo Tiago e Grafite voltarem entre os titulares.

A crise que atingiu o Santa Cruz refletiu no elenco. Os jogadores estão há três meses sem receber salários e convivem com problemas diários. Líder do elenco, Grafite foi além. Entendia que nomes de maior envergadura como ele, Léo Moura, Danny Morais e Tiago Cardoso ficassem alguns meses sem receber. A carreira de sucesso deles permitia passar pelo período conturbado sem maiores preocupações. Não o restante do elenco.

Jogadores formados nas categorias de base do clube e os que recebem salários mais baixos sofrem bastante. Alguns, como relatado pelo próprio Grafite, ficaram sem dinheiro até para pegar um táxi e comparecer aos treinos. Quem os ajudava eram os próprios líderes do elenco.

A crise não foi só financeira. Quando todos imaginavam que a situação não podia piorar, o volante Uillian Correia foi suspenso preventivamente por 30 dias por cair no antidoping com a substância "higenamina", após o empate por 2 a 2, contra a Chapecoense, na Arena de Pernambuco. Não jogará mais nesta temporada.

Fonte: GE